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A REVISTA DAS BEATS

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BANGERS OPEN AIR: O Oldschool e o novo conectados

Texto: Denis Dias / Fotos: Pedro Kozlakowski para o lado direito do palco



Bangers Open Air 2026, Dia 1

Se existe algo que resume o primeiro dia do Bangers Open Air 2026, pra mim são duas imagens: Jéssica Falchi abrindo o festival na guitarra do Korzus, e Lauren Hart fechando a noite como nova voz do Arch Enemy. Entre as duas apresentações, praticamente toda banda que subiu ao palco trazia alguém novo na formação.


Korzus - a plateia ainda vazia, a história cheia

Quem entrou cedo viu o Korzus subir ao Ice Stage com portões recém-abertos e público esparso. Era apenas o segundo show da nova formação, anunciada três semanas antes: Jéssica Falchi (ex-Crypta) e Jean Patton (ex-Project46) nas guitarras, ao lado dos veteranos Marcello Pompeu, Dick Siebert e Rodrigo Oliveira.

O público que procurou entrar cedo não se arrependeu. Há um respeito genuíno pela trajetória do Korzus que se traduz em refrões cantados do começo ao fim, desde o novo lançamento “No Light Within” que já caiu no gosto do público e principalmente quando o setlist enfileirou uma sequência do álbum clássico “Mass Illusion” de 1991 (um dos melhores discos de thrash que o Brasil já produziu) com “Agony”, “Victim of Progress”, e o medley com “Mass Illusion”, “P.F.Y.L.”, “Beyond the Limits of Insanity” e “Unpredictable Disease”.


Jéssica e Jean mostraram muito entrosamento que desmente as poucas semanas de ensaio e postura de quem ainda tem algo a provar. Na verdade já ensaiavam juntos há quase seis meses (um dos segredos mais bem guardados da história do metal) e apresentaram muita técnica, carisma e headbanging.


Na plateia e quase na grade estava Silvio Golfetti, guitarrista fundador. Sua presença ali era mais do que curiosidade, era aprovação e admiração.

O festival começou muito bem, selando o renascimento do Korzus.

Evergrey - storytelling a quase 30 graus

No Hot Stage, os suecos do Evergrey tiveram que lidar com um problema que não existe em Gotemburgo: quase 30 graus de calor e sol inclemente. O desconforto era visível no rosto vermelho de Tom Englund mas não afetou em nada sua performance. O Evergrey desacelerou a velocidade das palhetadas do Korzus mas sem perder peso e adicionando sua assinatura mais melódica.


A banda, que também apresentava um novo guitarrista (Stephen Platt), optou por um show sem pausas e com um storytelling visual no telão que conduzia o público de uma música a outra sem quebra da imersão. Fiquei até ouvir minha favorita “Kings of Errors” antes de migrar de palco, e valeu a espera.


Violator - representantes da Bay Area em Brasília

O Violator entregou exatamente o clima que o nome promete: thrash metal clássico, com sonoridade que remete diretamente à Bay Area da virada dos anos 80/90. Show pesado, muito energético, sem firulas. Daqueles que existem para lembrar que o metal brasileiro não depende de importação. Vi mais ou menos metade do show antes de trocar de palco novamente, e deixando a nota mental de que preciso ver inteiro o próximo show deles assim que possível.


Feuerschwanz - o metal que apresenta o metal

Eu nunca tinha ouvido falar de Feuerschwanz antes de vê-los no palco. Saí do show praticamente convertido para a fanbase. O grupo alemão faz um “metal medieval dançante” - músicas sobre dragões, dançarinas vestidas de freiras góticas e guerreiras, violino e gaitas de fole dividindo espaço com a distorção e drive das guitarras. Parece absurdo contando assim, mas ao vivo no palco funciona absurdamente bem.


Me chamou atenção que o público estava muito conectado com eles. Não era uma plateia curiosa ou a típica tiração de sarro brasileira - eram fãs que sabiam as músicas e estavam ali com a intenção clara de vê-los ao vivo. Se eu tivesse que recomendar uma banda para apresentar o heavy metal para uma criança, sem dúvida uma delas seria o Feuerschwanz.

Eles entregam toda a teatralidade e a energia do gênero sem ser infantil, sem apelar. É divertido ao mesmo tempo que é autêntico. E quem não estava prestando atenção neles antes acabou se rendendo quando cantaram “Dragostea Din Tei”, a música original que no Brasil é conhecida pela versão “Festa no Apê” (será suficiente pra dizer que teve Latino no Bangers?).


Jinjer - de Donetsk ao Memorial da América Latina

Após 3 visitas anteriores ao Brasil, além das datas anunciadas no Brasil que foram desmarcadas, devido a pandemia e a escalada de conflitos de guerra na Ucrânia, o Jinjer era muito esperado para essa apresentação no Bangers. Quando finalmente subiram ao palco, não foi apenas um show de metalcore - foi a materialização de tudo que eles sobreviveram para estar ali. Eles possuem autorização do Ministério da Cultura ucraniano para sair em turnê como embaixadores culturais do país, levantando fundos e conscientização sobre a guerra.


E se um país devastado pela guerra precisa se reconstruir, da mesma forma o Jinjer se reconstruiu entre o primeiro e segundo álbum - nenhum integrante atual da banda fez parte da sua fundação.

Ótimo show que agradou os fãs mais atentos na carreira da banda, e me surpreendeu muito a técnica vocal da Tatiana Shmayluk, que alterna com perfeição do gutural ao limpo praticamente como na gravação de estúdio do CD.


Torture Squad - 33 anos de brutalidade

Ao mesmo tempo em que a Tatiana Shmayluk do Jinjer ocupava um palco, a vocalista Mayara Puertas comandava o Torture Squad no outro. Duas mulheres em vocais pesados, simultaneamente, em palcos diferentes do mesmo festival.

Trinta anos atrás isso seria inimaginável - não por preconceito, mas também pela falta de espaço e mulheres nas bandas. Nos dias de hoje é a normalidade do line up do sábado, ainda bem.

O Torture Squad trouxe um show especial "Best Of" para celebrar 33 anos de brutal death metal brasileiro. Apesar de chamados de última hora para cobrir a ausência do Fear Factory, a presença da banda no Sun Stage reforça uma observação que vale para todo o festival: as bandas do começo de cada dia não estão ali somente para preencher espaço. Cada uma delas tem seus super fãs, e esses super fãs lotam a frente dos palcos e fazem as rodas de mosh.


Killswitch Engage - o moshpit acorda

Primeiro show do Killswitch Engage em quatro meses, e deu para perceber que a energia represada precisava escapar de alguma forma. Este foi o primeiro momento do dia em que vi o moshpit funcionando de forma contínua, sem pausa, daqueles que começam na primeira música e só param na última.

Eu já conhecia e ouvia a banda mas nunca tinha visto nada deles ao vivo, nem mesmo no YouTube. Por isso me chamou a atenção que o guitarrista Adam Dutkiewicz tem uma personalidade de palco completamente diferente do restante da banda. Enquanto toda a banda entrega muita intensidade séria, ele é o elemento zoeiro em uma dinâmica que funciona como alívio cômico e deixa o show com uma camada a mais de personalidade.


Crypta - serenidade antes do caos

Antes do show da Crypta iniciar, reparei na baterista Luana Dametto sentada na bateria por uns dez minutos, esperando pacientemente o início do show. Tranquila, sem afobação ou qualquer impaciência visível. Quando finalmente começou, junto com Fernanda Lira, Tainá Bergamaschi e a recém-chegada Victoria Villarreal encheram os amplificadores com o peso e precisão que se espera de uma banda que já conta com uma experiência enorme de tours internacionais e grandes festivais pelo mundo. Mais uma banda que preciso ver inteira em breve, vi poucas músicas para poder encontrar lugar no palco seguinte.


Black Label Society - o peso da homenagem

Assim que anoiteceu o Black Label Society subiu ao palco. Zakk Wylde trouxe o repertório do recém-lançado “Engines of Demolition” junto com alguns de seus clássicos, e o momento marcante foi “Ozzy's Song” - a balada que fecha o novo álbum, escrita como tributo a Ozzy Osbourne.


O público do BLS é um cruzamento geracional: fãs do Zakk em carreira solo, fãs do tempo que tocava na banda do Ozzy, fãs do Pantera que viram Zakk ocupar o espaço de Dimebag nos shows de celebração, e desconfio que também faça parte do seu público alguns fãs da série “Sons of Anarchy”.


In Flames - mudanças com consistência

Mais uma banda sem membros fundadores na formação atual e que eu conhecia muito pouco (ou nada) além da presença do ex-Megadeth Chris Broderick na guitarra.

Conversei com um fã pouco antes do show começar e ele me disse que Broderick trouxe uma camada técnica que revitalizou a guitarra da banda, e que apesar de todas as trocas a banda ainda soa consistente com seu histórico de criadores do death metal melódico.

Mais um show excelente, e mesmo já um pouco cansado do dia fizeram parecer que o tempo passou muito rápido. Aqui revelo um truque que faço com bandas que vejo ao vivo e não conheço: eu vou contando as músicas, registro “gostei muito da 9” e depois faço a lição de casa pesquisando o setlist. Neste caso foi a palhetada da “Only for the Weak” que me chamou a atenção e já salvei na minha playlist de favoritas.


Arch Enemy - a dúvida bem respondida

O Arch Enemy encerrou a noite no palco principal apresentando Lauren Hart como a quarta vocalista da história da banda no lugar de Alissa White-Gluz. Sua estreia era a grande interrogação da noite e a resposta foi muito positiva: ela encaixou na sonoridade da banda com naturalidade e os fãs compraram a proposta. Não houve aquele estranhamento que às vezes marca shows com formações recentes. Não era "a substituta da Alissa" - era a vocalista do Arch Enemy cantando “War Eternal” e “Nemesis” como se sempre tivesse estado ali.


Overdose - a noite não acabou no palco principal

Enquanto o Arch Enemy encerrava no palco grande, a lendária banda mineira Overdose (os mesmos do também lendário álbum split de 1985 “Overdose - Século XX / Sepultura - Bestial Devastation”) se apresentava lá no anfiteatro ao fundo do Memorial, no palco Waves. Começaram com um quinto ou um sexto do público mas com o final do show do Arch Enemy o local foi enchendo até a lotação completa.


Uma apresentação caótica no melhor sentido da palavra. O público tinha plena noção da importância do Overdose no metal nacional, e eles mostraram a competência de mais de 40 anos de carreira com um thrash muito bem evoluído. O momento marcante veio na última música: a banda estava dentro do tempo e ainda tinha alguns minutos para mais uma música, e escolheram “Anjos” ali na hora, que não estava no setlist original, para cumprir o tempo restante. E nos acordes finais o vocalista Vitor se rendeu a um crowd surfing refletindo a felicidade da enorme vitória da banda: venceram o horário ingrato, a concorrência de atenção com o palco principal, o anfiteatro com cadeiras, o cansaço do público.


O Oldschool e o novo conectados

O primeiro dia do Bangers Open Air 2026 conta uma história que vai além dos setlists. O primeiro show do dia com Korzus e a última apresentação do palco principal com Arch Enemy estrearam novas integrantes mulheres em suas formações e ambas caíram no gosto dos fãs.


Tivemos Torture Squad e Jinjer em palcos simultâneos, com duas frontwomen de muita personalidade. Pouco depois a nova guitarrista do Crypta Victoria Villarreal recebeu das mãos do público seus “novos documentos”: RG e cartão do SUS - não existe forma mais brasileira de dizer “seja bem vinda, gostamos de você como uma de nós”.


Quase todas as bandas do dia trocaram algumas peças (ou todas) sem perder identidade. Repetindo a pergunta da lenda do Navio de Teseu, se trocarmos todas as partes originais ainda é o mesmo navio? No caso do heavy metal, sim. O velho dá espaço ao novo sem deixar de existir.

E talvez essa seja a verdadeira engenharia do heavy metal em 2026: não precisamos nos apegar ao que sempre foi, nem destruir tudo para recomeçar; é como se fosse apenas uma troca de cordas da guitarra para continuar tocando.



Siga o lado direito do palco para não perder a segunda parte da cobertura do Bangers Open Air 2026



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